Reflexões Metafísicas

Nem Tudo Que Você Deseja Faz Bem Para Você

Entenda como distinguir os desejos do ego da orientação divina e por que algumas conquistas podem criar problemas em nossa vida.

Prof. Tibério Z

Por Prof. Tibério Z

Nós somos seres duplos. Em nossa experiência existe o ego, com seus medos, necessidades e comparações, mas também existe uma consciência divina ancorada em nós. O problema é que passamos quase toda a vida sendo conduzidos pelo ego sem perceber a origem das vontades que orientam nossas escolhas.

Desde a infância, aprendemos a viver por meio dessa estrutura. Por isso, grande parte daquilo que desejamos nasce da vontade de demonstrar poder, receber aprovação, superar outras pessoas ou compensar feridas antigas. Nem todo desejo representa aquilo de que realmente precisamos ou aquilo que fará bem para nossa vida.

O mesmo objeto pode nascer de intenções completamente diferentes. Um carro pode oferecer conforto e facilitar o trabalho, mas também pode servir para exibir riqueza e superioridade. O resultado não depende apenas do que conquistamos, mas da consciência que orientou nossa escolha e das consequências que aceitamos para sustentar o desejo.

Nós somos ego e divino

A experiência humana acontece por meio de duas dimensões. De um lado está o ego, uma estrutura construída pelas experiências, pelos medos, pelas comparações e pelos condicionamentos recebidos desde a infância. Do outro está a consciência divina que permanece ancorada em nós e sustenta nossa ligação com tudo o que existe.

Como fomos treinados para viver por meio do ego, ele comanda quase todos os momentos de nossa vida. Pensamos, escolhemos e desejamos a partir dele sem questionar de onde veio cada vontade. Aquilo que parece uma decisão livre pode ser apenas a repetição de uma necessidade antiga, de um medo ou de uma comparação.

Isso não significa que o ego seja completamente inútil. Ele participa de nossa experiência no mundo, mas cria problemas quando ocupa todo o espaço e passa a determinar sozinho aquilo que devemos buscar. Sem observar sua atuação, confundimos facilmente uma exigência do ego com uma orientação profunda de nossa consciência.

A maior parte dos desejos nasce do ego

Quando desejamos alguma coisa, raramente paramos para investigar a origem dessa vontade. Sentimos o impulso e imediatamente começamos a pensar em como conquistar aquilo. O desejo parece suficiente para justificar todo o esforço necessário, mesmo quando sua realização exige comprometer nossa paz, nossa saúde ou nossa estabilidade financeira.

Entretanto, grande parte dos desejos nasce do ego. Ele quer provar, aparecer, controlar, vencer ou compensar alguma insegurança. Como essa motivação permanece escondida, podemos chamar de necessidade aquilo que, na verdade, é apenas uma tentativa de receber aprovação, demonstrar superioridade ou esconder um medo que ainda não conseguimos enfrentar.

O desejo do ego pode ser materializado. Nós podemos insistir, trabalhar, financiar, cocriar e finalmente conseguir o objeto desejado. O problema é que a conquista não elimina a ferida que originou o desejo e ainda pode produzir novas dificuldades, porque recebemos junto com ela todas as consequências da motivação que orientou nossa escolha.

O mesmo carro pode representar duas vontades

Existem duas maneiras muito diferentes de desejar um carro. Uma pessoa pode precisar dele para trabalhar melhor, evitar um ônibus lotado, chegar mais rápido e ter mais conforto durante seus deslocamentos. Nesse caso, o veículo atende a uma necessidade prática e possui uma função clara dentro da vida cotidiana.

Tanto faz se o carro é novo, antigo, caro ou simples. Um Fiat velho, um Ka ou qualquer outro modelo pode cumprir a mesma função. O objetivo verdadeiro é sair do ponto A, chegar ao ponto B e melhorar uma necessidade concreta, sem transformar o veículo numa medida do valor pessoal de quem o comprou.

A segunda possibilidade é comprar um carro para impressionar. A pessoa quer parecer mais rica, sentir-se superior e olhar para os outros como se fossem inferiores. O veículo deixa de ser apenas um meio de transporte e se transforma em um símbolo usado pelo ego para construir uma imagem diante das outras pessoas.

Quando o desejo exige uma vida que não podemos sustentar

Para manter a imagem desejada, a pessoa assume um financiamento que não consegue pagar. Depois, compromete grande parte da renda com parcelas, combustível, manutenção e outros custos necessários para sustentar o veículo escolhido, sacrificando sua tranquilidade apenas para conservar a aparência que queria mostrar aos outros.

Durante algum tempo, ela pode receber olhares e acreditar que finalmente conquistou o reconhecimento que desejava. Entretanto, meses ou anos depois, encontra-se endividada por causa de um objeto comprado principalmente para alimentar a própria imagem. O prazer inicial desaparece, mas as parcelas e as obrigações continuam presentes.

O problema não estava no carro. Estava na intenção que conduziu a escolha. Um desejo voltado para uma necessidade prática poderia trazer conforto, enquanto o desejo fundamentado na comparação criou uma dificuldade que antes não existia e passou a consumir a renda que deveria atender a outras áreas da vida.

Os desejos do ego nascem do medo e da comparação

O ego deseja poder, superioridade e reconhecimento. Ele quer ser visto como melhor, mais bonito, mais rico ou mais importante. Por trás dessas vontades geralmente existe algum medo que a pessoa tenta esconder de si mesma e dos outros, usando uma conquista externa para compensar aquilo que ainda dói interiormente.

Alguém que sofreu bullying e cresceu acreditando que era feio pode decidir transformar completamente o próprio corpo para provar alguma coisa. A busca aparentemente física pode estar sendo conduzida por uma antiga sensação de rejeição, e não por uma relação equilibrada com a saúde ou pelo cuidado consciente com o corpo.

Essa pessoa pode recorrer a anabolizantes para ficar forte e demonstrar que não é mais aquela criança ridicularizada. Décadas depois, poderá enfrentar consequências graves no fígado ou nos rins. O ego conquistou a imagem desejada, mas criou outro problema no caminho porque continuou obedecendo à ferida que pretendia esconder.

O divino não precisa provar superioridade

A consciência divina não está preocupada com a opinião dos outros. Ela não precisa demonstrar poder, vencer comparações ou construir uma aparência de superioridade. Por isso, um desejo orientado pelo divino possui uma qualidade diferente e não exige que alguém seja diminuído para que possamos nos sentir maiores.

No exemplo do carro, a orientação divina reconhece uma necessidade real: trabalhar melhor, evitar o ônibus lotado e ter mais conforto. Ela não exige um modelo específico para humilhar ou impressionar alguém. O objeto permanece ligado à sua função e não se transforma numa tentativa de compensar inseguranças por meio da aparência.

Quando conseguimos identificar essa diferença, a pergunta deixa de ser apenas o que queremos. Precisamos também perguntar por que desejamos aquilo, qual parte de nós espera ser alimentada pela conquista e se estamos dispostos a assumir as consequências que acompanham essa escolha.

Divino, Deus, Universo e Criador

Divino, Deus, Universo e Criador são nomes que usamos para falar da consciência universal que deu origem a tudo. A palavra divino pode ser mais adequada quando a palavra Deus se torna excessivamente ligada à imagem religiosa de um homem sentado em um trono e separado de toda a criação.

Deus não é humano. Uma pequena parte dessa consciência manifesta-se na experiência humana, mas ela também está no cachorro, no céu, na Lua, no vento, na montanha, no passarinho e na maçã. Está presente em tudo aquilo que existe, porque nada permanece fora dessa consciência universal.

Essa consciência divina também está ancorada em nós. É ela que sustenta a vida e permite que a existência aconteça. Nada poderia viver ou existir sem essa presença, porque toda forma de vida participa da mesma consciência e recebe dela a energia necessária para existir.

O ego também pode cocriar

A cocriação não pertence somente à consciência divina. O ego também pode concentrar energia, insistir numa vontade e materializar aquilo que deseja. Conseguir alguma coisa, portanto, não significa automaticamente que aquela conquista fará bem ou que nasceu de uma orientação alinhada com nossa parte divina.

O ego pode obter o carro, o corpo, o reconhecimento ou a posição que buscava. Entretanto, quando a intenção está fundamentada no medo, na comparação ou na vontade de poder, a própria conquista tende a trazer consequências. A materialização acontece, mas não elimina aquilo que motivou a busca.

É como uma criança fazendo birra porque deseja alguma coisa. Ela insiste, rejeita qualquer orientação contrária e acredita que somente será feliz quando conseguir. Depois da conquista, descobre que recebeu também os problemas ligados àquele desejo e que sua insatisfação interior continua presente.

Grande parte dos nossos problemas foi criada por nós

É comum atribuir todos os problemas ao acaso, ao caos ou às circunstâncias da vida. Esses fatores existem e podem produzir situações que não estavam sob nosso controle. Entretanto, uma parte muito grande das dificuldades nasceu de nossas próprias escolhas, de nossa insistência e das decisões tomadas para satisfazer o ego.

Quando observamos honestamente nossa história, percebemos quantas vezes insistimos em algo que não fazia bem. O coração indicava a esquerda, mas seguimos para a direita porque o ego desejava outra coisa. Depois, tratamos a consequência como se ela tivesse aparecido sem nossa participação e procuramos fora de nós a causa do sofrimento.

Cerca de 10% dos problemas podem estar relacionados ao acaso, à vida e àquilo que não podíamos prever. Os outros 90%, muitas vezes, foram criados por nossa insistência, por nossas escolhas e pela recusa em escutar aquilo que já sabíamos interiormente. Reconhecer isso é assumir que participamos da construção de nossa realidade.

Reconhecer nossa responsabilidade muda o caminho

Dizer que fomos nós que criamos determinados problemas não significa viver em culpa. Significa recuperar a responsabilidade sobre a própria vida. Se conseguimos reconhecer como participamos da criação de uma dificuldade, também podemos modificar as escolhas que continuam alimentando aquela situação e evitar repetir o mesmo movimento.

Enquanto culpamos somente as circunstâncias, permanecemos sem poder de mudança. Quando reconhecemos a birra do ego, a necessidade de aprovação e o medo escondido dentro de um desejo, podemos interromper o processo antes que ele produza novas consequências ou nos obrigue a sustentar uma vida que não corresponde ao que realmente precisamos.

Antes de insistir numa conquista, precisamos silenciar e observar. Esse desejo atende a uma necessidade real ou pretende provar alguma coisa? Ele conduz a uma vida mais simples e equilibrada ou exige que sacrifiquemos nossa paz, nossa saúde e nossa estabilidade apenas para sustentar uma imagem diante dos outros?

Perguntas frequentes

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Prof. Tibério Z

Sobre o autor

Prof. Tibério Z tem mais de 30 anos de experiência no estudo e ensino da espiritualidade, metafísica, terapias holísticas e desenvolvimento da consciência.